Mirian Goldenberg


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Como está a sexualidade e o corpo no futuro?

Leia na íntegra a carta de Mirian Goldenberg, endereçada ao arqueólogo do futuro.

Caro Arqueólogo do Futuro,

Sou antropóloga e pesquisadora do culto ao corpo, aqui no Brasil dos séculos XX e XXI. Tenho uma enorme curiosidade em saber quais serão as transformações do corpo feminino no futuro. Será que você poderia me contar? As mulheres continuam querendo ser magérrimas? Fazendo regimes malucos para não engordar? Mutilando seus rostos e corpos em busca da perfeição? Gastando muito dinheiro com produtos de beleza completamente ineficazes? Vestindo roupas de adolescentes mesmo quando passaram dos 40? Pintando seus cabelos de loiro? Querendo imitar o peito siliconado da atriz famosa ou a boca carnuda da supermodelo do momento?

Vou explicar o motivo dessas inquietações aparentemente fúteis, com a esperança que você responda que as mulheres do futuro são muito mais livres, felizes e satisfeitas com a própria aparência e forma física do que as do meu tempo.

Estudei o papel do corpo feminino na cultura brasileira em dois diferentes momentos e contextos históricos. O primeiro estudo foi uma análise da trajetória de Leila Diniz em tese de doutorado. Quando, em 1971, Leila exibiu sua barriga grávida de biquíni, na praia de Ipanema, escandalizou e lançou moda. Foi capa de revistas e manchete de jornais por ter sido a primeira mulher a não esconder sua barriga em roupas largas e escuras, consideradas mais adequadas a uma grávida. Não só engravidou sem ser casada como exibiu uma imagem concorrente à grávida tradicional que escondia sua barriga. A barriga grávida materializou, objetivou, corporificou seus comportamentos sexuais transgressores. Ícone das décadas de 1960 e 1970, Leila Diniz tornou-se símbolo da mulher carioca, que representava, melhor do que qualquer outra, o espírito da cidade: corpo seminu, sedução, prazer, liberdade, sexualidade, alegria, espontaneidade.

Em outra pesquisa, situada no final do século XX e início do XXI, constatei que a preocupação com a aparência e a juventude era uma verdadeira obsessão entre as brasileiras, provocando uma permanente insatisfação com o próprio corpo. O corpo de Leila Diniz (e de muitas mulheres de sua geração) era um corpo voltado para o prazer, para o livre exercício da sexualidade, que exibia sua beleza e plenitude à luz do sol. O corpo das mulheres da geração seguinte era um corpo controlado, mutilado, que preferia a escuridão para esconder suas imperfeições. Em pouco mais de três décadas, assistimos a uma grande transformação do corpo feminino: do exercício do prazer à busca da perfeição estética, da liberdade à submissão aos modelos, do erotismo à falta de desejo.

Não pense, caro arqueólogo, que sou uma feminista radical (com todos os estereótipos que cercaram este personagem no Brasil da segunda metade do século XX), que denuncio a obsessão feminina com o corpo perfeito, belo, jovem e magro apenas porque gostaria de também ter um. Na verdade, defendo a liberdade de escolha da mulher, em todos os domínios de sua vida, como fez Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, escrito em 1949. Assim, acredito que as mulheres deveriam lutar por uma liberdade fundamental: a de imaginar o próprio futuro e de ter orgulho da própria vida, demonstrar sua aceitação para com sua idade, seu corpo, sua pessoa e sua história. Concordo com a escritora americana Naomi Wolf que dizia que a eliminação dos sinais da idade dos rostos e corpos femininos deveria ter a mesma ressonância política que seria provocada se todas as imagens de negros fossem clareadas, pois equivale a apagar a identidade, o poder e o valor das mulheres. É no mínimo estranho pensar que, após décadas de lutas femininas pela liberação da opressão e pelo pleno exercício da sexualidade, após Leila Diniz tornar-se um modelo de sensualidade revolucionária com seu corpo grávido exibido nas praias cariocas, muitas mulheres aceitaram submeter-se a um novo tipo de prisão.

Só para você ter alguns dados empíricos sobre essa realidade, vou apresentar algumas observações da minha pesquisa, realizada de 1998 a 2004, com 1.279 questionários respondidos por mulheres e homens, de 17 a 50 anos, com nível universitário, moradores da cidade do Rio de Janeiro.

Ao perguntar O que mais te atrai em um homem (uma mulher)?, encontrei que o que mais atrai as mulheres em um homem é a inteligência, o corpo e o olhar. O que mais atrai os homens em uma mulher é a beleza, a inteligência e o corpo. Para a questão: O que mais te atrai sexualmente em um homem (uma mulher)?, a bunda é o que mais atrai sexualmente os homens (23%), enquanto que o tórax é a resposta mais encontrada nas mulheres (17%). Praticamente a mesma porcentagem de homens (17%) e mulheres (16%) disseram ser o corpo o que mais os atrai no sexo oposto.

Ao perguntar às mulheres: O que você mais inveja em um mulher?, elas responderam a beleza em primeiro lugar, o corpo em segundo, e a inteligência em terceiro lugar. Quando perguntei aos homens: O que você mais inveja em um homem?, tive como respostas: a inteligência, o poder econômico, a beleza e o corpo.

Não aprofundarei aqui a análise do aspecto cultural e simbólico da preferência das mulheres pelas partes superiores do corpo masculino e, inversamente, da atração dos homens pelas partes inferiores do corpo feminino, sendo a bunda a preferência nacional masculina desde que o Brasil é Brasil. Prefiro deter-me na recorrência da resposta ?o corpo? como algo invejado, desejado e admirado, não apenas pelas mulheres, mas também, expressivamente, pelos homens. O mais interessante é que em todas as questões acima a categoria corpo aparece sem nenhum adjetivo. Apenas em uma das questões da pesquisa, quando, para saber o que homens e mulheres procuravam em um relacionamento afetivo, sugeri: Se você escrevesse um anúncio com o objetivo de encontrar um parceiro, como você se descreveria? Como você descreveria o que procura em um parceiro?, este corpo apareceu nas respostas como ?definido?, ?malhado?, ?trabalhado?, ?sarado?, ?saudável?, ?atlético?, ?bonito?, entre outros.

A recorrência das respostas revela a centralidade que o corpo adquiriu para os indivíduos das camadas médias, no final do século XX e início do XXI. Este segmento social foi estudado por ter uma visão de mundo e estilo de vida que produziriam um efeito multiplicador que extravasa seus limites, podendo revelar, de forma mais geral, o processo de mudança que os papéis de gênero sofreram. Pode-se assim supor que a preocupação com o corpo alcançou mulheres de todos os segmentos da sociedade brasileira.

Outro dado da pesquisa merece destaque: 60% dos homens e 47% das mulheres afirmaram já terem sido infiéis. Nota-se que, apesar de não estarem tão distantes nesta questão, os motivos apontados para a traição foram completamente diferentes. Homens disseram trair por uma afirmação de sua virilidade, para provarem que são ?homens de verdade?. ?Instinto?, ?natureza?, ?galinhagem?, ?é um hobby?, ?testicocefalia?, ?pintou uma chance que eu não podia recusar? foram respostas presentes apenas no discurso masculino. A clássica dissociação entre sexo e afeto aparecia na maior parte dos pesquisados, apontando para a divisão feita pelos homens brasileiros entre ?mulher da casa? e ?mulher da rua?, ?santa? e ?puta?, ?lugar da família? e ?lugar do prazer sexual?. Já nas respostas femininas encontrei ?insatisfação com o parceiro?, ?vontade de experimentar?, ?falta de amor e atração?, ?auto-afirmação?, ?para levantar a auto-estima?, além de um número significativo de mulheres que foram infiéis porque não se sentiam mais desejadas pelos parceiros.

Esse comportamento feminino demonstra como o corpo teve um peso importante nos relacionamentos afetivo-sexuais e, também, em determinados comportamentos que podem ser interpretados como frutos de uma cultura que valoriza excessivamente a aparência, a juventude e a forma física. O fato de muitas mulheres traírem apenas para provar que seus corpos são capazes de seduzir demonstra uma enorme insegurança com relação a outros atributos que também poderiam ser utilizados no jogo da sedução, como a inteligência, o charme, o humor, o poder, entre tantos outros.

No que diz respeito à maneira como homens e mulheres pensavam o corpo feminino, também se percebe um grande distanciamento. As mulheres queriam seduzir homens com um corpo que estava longe da preferência masculina. O padrão de beleza desejado pelas mulheres foi construído por meio de imagens das supermodelos, que se consagraram a partir dos anos 1980 e conquistaram status de celebridade nos 1990. Doenças como anorexia e bulimia tornaram-se quase uma epidemia em uma geração que cresceu tentando imitar o corpo de Cindy Crawford, Linda Evangelista, Claudia Schiffer e a brasileira Gisele Bündchen. Só que os homens que responderam ao meu questionário elegeram como suas musas Sheila Carvalho, Luma de Oliveira, Luana Piovani, Mônica Carvalho e outras ?gostosas? que estavam longe das medidas das modelos magérrimas das passarelas.

Uma revista especializada dos Estados Unidos mostrou uma pesquisa com duzentas universitárias, das quais, um terço, independentemente de serem gordas ou magras, disseram que a imagem que o parceiro fazia do corpo delas era o mais importante durante o ato sexual. O estudo revelou que a ansiedade em relação à forma física levou muitas mulheres até mesmo a evitarem o sexo. A psicanalista inglesa Susie Orbach disse que um dos principais fatores que geraram a frustração em relação ao sexo era o modelo de beleza apregoado pela sociedade que afetava especialmente as mulheres: ?É o corpo feminino perfeito, magro e esguio. A apologia do corpo perfeito é uma das mais cruéis fontes de frustração feminina dos nossos tempos. A obsessão pela magreza virou uma epidemia. Considero a busca do corpo perfeito um retrocesso no processo de emancipação feminina. Houve apenas um breve momento de progresso das mulheres nos anos 1970. Depois disso, elas começaram a recuar, escravizadas por um modelo inalcançável de beleza. Há uma ironia nesse fato: justamente em um tempo em que as mulheres dizem querer ganhar espaço, elas procuram ficar cada vez menores e mais esquálidas?.

Dados do período demonstram que a brasileira tornou-se campeã na busca desse corpo perfeito. A revista Time chamou atenção para esse fato na capa que trouxe Carla Perez com a seguinte legenda: ?The plastic surgery craze: latin american women are sculping their bodies as never before ? along California lines. Is this cultural imperialism??. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o brasileiro, especialmente a mulher brasileira, tornou-se o povo que mais faz plástica no mundo: 350.000 pessoas submeteram-se a pelo menos um procedimento cirúrgico com finalidade estética em 2000. Em cada grupo de 100.000 habitantes, 207 pessoas foram operadas em 2000. Os Estados Unidos, tradicionais líderes do ranking, registraram 185 operados por 100.000 habitantes no ano 2000 (sendo a renda per capita americana oito vezes maior que a nossa). Mas o que tornou o Brasil especial nessa área foi ?o ímpeto com que as pessoas decidem operar-se e a rapidez com que a decisão é tomada?.

Para você, arqueólogo, ter idéia de como a obsessão feminina com o corpo foi uma das marcas culturais do Brasil na virada do século XX para o XXI, basta dar uma olhada nos inúmeros sites na internet que incentivavam a anorexia. Um exército de adolescentes usou a internet para ensinar outras jovens a serem anoréxicas, pregando a inapetência e a autopunição sempre que comerem. As páginas são assustadoras com fotografias de meninas esquálidas apontadas como modelos de beleza, dicas para enganar os pais e amigos para fingir que estão alimentadas e formas de punir-se caso comam algo que engorda. Um site brasileiro divulgou os seguintes ?mandamentos?: ?você não deve comer sem se sentir culpado. Você não deve comer algo que engorda sem se punir depois. Ser magra é mais importante do que ser saudável. Você nunca está magro demais. Ser magro é a coisa mais importante que existe?. Outras dicas são: ?Não engula! Morda, mastigue e jogue fora! Durma pouco. Dessa forma você queima mais calorias. Limpe banheiros ou ambientes bem sujos. Você perde a fome. Diga que você vai comer no quarto e jogue a comida fora. Em casa, diga que vai comer com os amigos. Aos amigos você diz que já comeu em casa?.

Em A dominação masculina, o sociólogo francês Pierre Bourdieu afirmou que os homens tendem a se mostrar insatisfeitos com as partes de seu corpo que consideram ?pequenas demais? enquanto as mulheres dirigem suas críticas às regiões de seu corpo que lhe parecem ?grandes demais?. O autor acreditava que a dominação masculina, que constitui as mulheres como objetos simbólicos, tem por efeito colocá-las em permanente estado de insegurança corporal, ou melhor, de dependência simbólica: elas existem primeiro pelo, e para, o olhar dos outros, como objetos receptivos, atraentes, disponíveis. Delas se espera que sejam ?femininas?, ou seja, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas. Neste caso, ser magra contribui para esta concepção de ?ser mulher?. Sob o olhar dos outros, as mulheres vêem-se obrigadas a experimentar constantemente a distância entre o corpo real, a que estão presas, e o corpo ideal, o qual procuram infatigavelmente alcançar.

Por outro lado, como lembrou Bourdieu, a estrutura impõe suas pressões aos dois termos da relação de dominação, portanto aos próprios dominantes, que são ?dominados por sua dominação?, fazendo um ?esforço desesperado, e bastante patético, mesmo em sua triunfal inconsciência, que todo homem tem que fazer para estar à altura de sua idéia infantil de homem?. Na minha pesquisa, os homens revelaram-se extremamente preocupados com a altura, força física, potência, poder, virilidade e, particularmente, com o tamanho do pênis. No início do século XXI, muitos adolescentes ficaram doentes e outros morreram porque usaram anabolizantes bovinos com o objetivo de adquirir massa muscular. Milhares escreviam para sites de psicólogos extremamente preocupados com o tamanho de seus pênis. Pode-se perceber que exigências terríveis a respeito de um determinado modelo de corpo escravizaram não apenas as mulheres mas também os homens.

O material de minha pesquisa sugere que a busca de um determinado modelo de corpo funcionava, para os indivíduos pesquisados, como uma luta simbólica imposta àqueles que não se disciplinavam para se enquadrar nos padrões exigidos. As sociedades são capazes de levar os seus membros, por meios puramente simbólicos, à doença e à morte: incutindo-lhes a perda da vontade de viver, fazendo-os deprimidos, abalando-lhes de toda forma o sistema nervoso, consumindo as suas energias físicas, marginalizando-os socialmente, privando-os de todos os pontos de referência afetivos. No caso estudado, a busca de um corpo considerado ?saudável? e ?atraente?, de acordo com os modelos socialmente legitimados, levou homens e mulheres a doenças e, também, à morte, simbólica ou até mesmo biológica.

Pode-se concluir que a aparente liberação dos corpos, sugerida por sua onipresença na publicidade, na mídia e nas interações cotidianas, nos séculos XX e XXI, tem, por trás, um ?processo civilizador?, que se empreendeu e legitimou-se por meio dela. Devido à moral da ?boa forma?, a exposição do corpo não exigia dos indivíduos apenas o controle de suas pulsões, mas, também, o (auto)controle de sua aparência física. É interessante destacar o paradoxo que o culto ao corpo gerou nesta cultura de classe média. Quanto mais se impunha o ideal de autonomia individual, mais aumentava a exigência de conformidade aos modelos sociais do corpo. Se é verdade que o corpo emancipou-se de muitas de suas antigas prisões sexuais, procriadoras ou indumentárias; ele encontrou-se, no período estudado, submetido a coerções estéticas mais imperativas e geradoras de ansiedade do que antes. A obsessão com a magreza, a multiplicação das academias de musculação, o uso de anabolizantes, testemunham o poder normalizador dos modelos, um desejo maior de conformidade estética que se chocava com o ideal individualista e sua exigência de singularização dos sujeitos.

Então, caro arqueólogo, responda às minhas questões: a mulher do futuro continua preocupada em ser magra, bela e jovem? O homem permanece com o desejo de ser alto, forte e viril? Quais são os novos modelos de corpo e saúde? Quem são as Giseles e os Gianecchinis do futuro?

MIRIAN GOLDENBERG ? é antropóloga, doutora em Antropologia Social, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de A Outra, Toda Mulher é meio Leila Diniz, A Arte de Pesquisar, Nu & Vestido e De perto ninguém é normal(todos da editora Record).